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02 abril 2012

Café com aroma de Fritz Müller


Todos admiravam a bebida do dia-a-dia, amarga, forte, vendida por R$0,30 na padaria do bairro. O café sempre foi bom, útil, sinônimo de brasilidade (seja lá o que isso for). O café não era um ritual, uma experiência. Não era nada. Era café. Era bom. Até que, num dia, o sequestraram e levaram para shoppings, docerias, rotisserias, quitandarias, cupcakerias, gelaterias e quaisquer outras formas pretensiosas e imbecis terminadas com “eria” pra deixar complexo algo conhecido como confeitaria.
O café começou a ter um aroma de poesia e um gosto aveludado, com notas de Saussure e Chomsky. Famigeraram-se várias dicotomias: café x trabalho, café x criatividade, café x estilo. O pingado virou Caffè Machiato. O brasileiro aprendeu que é café espresso, com s mesmo. Muita gente teve que abrir o Google pro amigo e mostrar:
- tá vendo, eu falei que o espresso com “s” tava escrito certo.
- ok, mas o que significa?
- significa expresso, rápido, ué. Só que italiano. Foram eles que inventaram o café.
As unidades da Starbucks, do Fran’s Café, da Kopenhagen, Café Suplicy, Casa do Pão de Queijo (que também introduziu o conceito do pão de queijo de grife) se encheram de criativos usando camisa xadrez e óculos de aro grosso, que veem nas cafeterias o melhor lugar pra se trabalhar e ter ideias fora da caixa. Sempre acompanhado de um bom croissant, o café tem que vir com uma dose de pinga, só que, no lugar da pinga, é água com gás e um docinho com gosto de nada.Estudos do Datafolha comprovam que 76,8% das pessoas fazem questão da água com gás mas não tomam (ou tomam depois do café).
O café passou a ser servido num copo de isopor com seu nome anotado (ótimo para postar no Instagram enquanto você fica por 5 minutos esperando na fila pra pedir seu muffin de frutas vermelhas com calda de Nutella) com um bico cuja total higiene não foi exatamente comprovada. O café tem o mesmo gosto do café da padaria do seu bairro, só que custa de R$3 a R$15, dependendo da loja e da complexidade do filme Iraniano sobre o qual você quer discutir com o amigo. Aliás, o café parece ser até pior.
Daí surge gente que diz que “não consegue viver sem café”. Cara, você mora em São Paulo, vive até sem oxigênio, claro que consegue viver sem café. E gente que se diz “viciada em café”. Nunca vi ninguém vendendo o DVD de casa ou assaltando pra conseguir dinheiro pra subir o morro e comprar café no meio da noite. No caminho para a cafeteria, você passa por várias padarias de esquina, e esse cara está lá, tomando seu café forte, se preparando pra voltar pra trabalho, dizendo mentalmente:



Post original do Marketing na Cozinha postado pelo Danilo Miranda

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